A Inteligência Artificial (IA) tem sido celebrada como uma das tecnologias mais promissoras para enfrentar os dilemas contemporâneos das cidades — da mobilidade caótica à gestão energética, da poluição ao planejamento urbano. Mas, afinal, como a IA está sendo aplicada no contexto das cidades inteligentes e sustentáveis? E mais importante: essas aplicações estão promovendo desenvolvimento sustentável para todos — ou apenas para alguns?
Essas são as perguntas centrais do artigo “Smart and Sustainable Cities and the AI: a bibliometric analysis”, de Daielly Mantovani, Taiane Ritta Coelho, Adriana Backx Noronha Viana e Guilherme Arevalo Leal, apresentado no AMCIS 2025. Por meio de uma análise bibliométrica de 325 artigos científicos publicados entre 2013 e 2025, o estudo oferece um raio-x inédito sobre o que a ciência tem produzido na intersecção entre IA, cidades inteligentes e sustentabilidade.
O estudo começa com uma distinção importante: cidade inteligente não é o mesmo que cidade inteligente e sustentável. Enquanto a primeira foca na eficiência tecnológica e otimização de recursos, a segunda tem um compromisso explícito com a justiça social e a proteção ambiental. Ou seja, não basta ser eficiente: é preciso ser justo, resiliente e inclusivo — princípios centrais do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 11 (ODS 11), mas também intimamente ligados ao ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), ao ODS 7 (Energia Limpa e Acessível) e ao ODS 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima).
A análise dos artigos científicos mapeou oito grandes temas onde a IA tem sido aplicada para tornar cidades mais inteligentes e sustentáveis:
Energia Renovável e Redes Inteligentes: otimização do uso de energia, integração de fontes renováveis e eficiência no consumo urbano.
Segurança, Privacidade e Blockchain: tecnologias que garantem a integridade de dados e a segurança dos cidadãos em um ambiente altamente monitorado.
Governança Urbana e Modelos de Negócio: IA apoiando decisões baseadas em evidências, automatizando processos e melhorando o desempenho institucional.
Mudanças Climáticas: IA para prever padrões ambientais, monitorar qualidade do ar e da água e planejar infraestrutura resiliente.
Desafios Éticos e Técnicos: questões como privacidade, ética no uso de dados e resistência de políticas públicas tradicionais às inovações tecnológicas.
Tendências Emergentes: edge computing, veículos autônomos, machine learning, deep learning e IA aplicada à sustentabilidade.
Big Data e Algoritmos: uso massivo de dados gerados por sensores urbanos para alimentar modelos preditivos e analíticos.
Mobilidade Urbana: soluções para transporte público inteligente, gestão de tráfego e sistemas de carona compartilhada.
Um dos achados mais inquietantes do estudo foi a concentração da produção científica em países como China, EUA e Europa. A China se destacou como o país com maior número de publicações e colaborações, enquanto América Latina e África aparecem como regiões sub-representadas.
Esse desequilíbrio levanta uma questão crítica: as soluções tecnológicas para cidades inteligentes e sustentáveis estão sendo pensadas a partir de quais realidades? Uma cidade da Índia, por exemplo, tem desafios socioambientais muito distintos de uma cidade do sul do Brasil ou do interior da Nigéria. Sem vozes locais na produção científica, há o risco de importar soluções que não dialogam com o contexto, a cultura e os desafios reais das cidades do Sul Global.
Este artigo é um convite à reflexão: de que forma queremos que a IA participe do desenho de nossas cidades? Queremos sistemas que otimizem o trânsito apenas para quem pode pagar por carros autônomos, ou queremos ferramentas que ajudem a reduzir desigualdades no acesso à saúde, à educação e à moradia?
Cidades verdadeiramente inteligentes e sustentáveis não são aquelas cheias de sensores, mas aquelas que usam tecnologia para proteger as pessoas, o meio ambiente e os direitos fundamentais. Isso exige mais ciência produzida no Sul Global, mais diálogo entre universidades e gestores públicos, e mais atenção às implicações éticas do que significa colocar a IA no centro do planejamento urbano.
Como mostrou o estudo de Mantovani e colegas, a IA tem um enorme potencial para transformar a vida urbana — mas apenas se for orientada por valores éticos, inclusivos e sustentáveis. É hora de repensar o que significa "inteligência" nas cidades: não é só computacional, mas também humana, coletiva e comprometida com um futuro justo para todos.
O texto completo de Mantovani, Coelho, Viana e Leal (2025) foi publicado nos Proceedings do AMCIS 2025 (America’s Conference on Information Systems) e pode ser acessado aqui(https://aisel.aisnet.org/cgi/viewcontent.cgi?article=1083&context=amcis2025)
26/07/2025 19:42 - texto redigido com apoio do ChatGPT a partir do texto completo
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